Revisão de cerca de 40% na estimativa do crescimento alemão para 2006
O título bombástico é provocatório mas infelizmente encontra paralelo na prática de muita imprensa nacional. A mesma que qualificou de duplicação do ritmo de crescimento do PIB no terceiro trimestre a passagem de uma variação do taxa de variação homóloga do PIB de 0,8% para 1,5%; sendo verdade, dá uma ideia que pouco adiante para a adequada análise da relevância dos números e evoluções em apreço.
Sim, meus amigos, lá corro o risco de apanhar com mais um rótulo corporativo e desta vez com a agravante de ter um pé num dos lados de uma barricada… Ontem constatei a gritante ignorância (ou má vontade) deixada por Martim Avilez Figueiredo (director do Diário Económico) num comentário que fez na SIC Notícias (veja-se aqui o detalhe). Hoje, a propósito desta notícia a que chego via Jornal de Negócios:
"O IFO, um dos mais respeitados institutos de conjuntura económica, reviu hoje em forte alta a sua previsão de crescimento para o PIB da Alemanha, prevendo agora que a maior economia europeia cresça este ano 2,5%, mais sete décimas do que a anterior previsão. (…)"
recordo um editorial de Bruno Proença (também no Diário Económico - 11 de Dezembro) onde entre outras coisas se lia isto:
"(…) O Instituto Nacional de Estatística (INE) reviu os dados passados do comércio internacional e o contributo da componente externa para o produto é menos positiva, já que as importações foram superiores ao revelado pelos dados preliminares. Os valores de base das previsões estavam errados. Isto sim é preocupante, porque acontece vezes demais. As revisões das séries estatísticas por parte do INE são, infelizmente, um hábito, que coloca a nu as fragilidades do sistema estatístico nacional. O que parece ser, afinal não é. Normalmente é pior. A situação atingiu uma tal dimensão que o Banco de Portugal já alertou diversas vezes para esta situação e coloca reservas nas suas previsões, pois não confia nos dados em que se baseia A bola está do lado do INE: tem muito para fazer para melhorar a qualidade e a fiabilidade dos dados que divulga. (…)"
E fico a matutar sobre o que dirá Bruno Proença do IFO (um dos mais prestigiados institutos de investigação económica internacional) que conseguiu a proeza de rever em 7 décimas a estimativa de crescimento para 2006… a 15 dias do final do ano. Também fico a matutar noutros factos, como sejam: conhecerá o Bruno Proença a dimensão das revisões das estatísticas produzidas directamente pelo Banco de Portugal? É que o Banco de Portugal também produz estatísticas que até são input para as estatísticas do INE (por exemplo para as contas nacionais trimestrais) e que até têm revisões históricas importantes com regularidade.
Mas mais importante do que tudo isto pergunto se Bruno Proença saberá da dimensão e frequência das revisões consideradas aceitáveis e/ou inevitáveis para os respectivos valores do PIB (para pegar num indicador chave) provenientes do Bureau of Economic Analysis dos Estados Unidos, do Central Statiscs Office do Reino Unido, do Central Bureau of Statistics Holandês ou do Economic and Social Research Institute do Japão para citar apenas alguns dos mais prestigiados? Quando souber as respostas a estas perguntas e conhecer os motivos que são aceitáveis e em larga medida inevitáveis para justificar as revisões, bem como os que são inaceitáveis e endógenos aos produtores de estatísticas talvez possamos começar a discutir seriamente formas de melhorar a qualidade das estatísticas nacionais e, nomeadamente, o trabalho do INE. E não me entendam mal, há muito para melhorar no INE, não acredito que haja quem por lá trabalhe que defenda o contrário.
Entretanto deixo aqui um convite que o INE lança a todos os utilizadores de informação estatística e que julgo constituir um pequeno exemplo de algo que tem mudado para melhor e que tem potencialidades interessantes, participem no: Ciclo de workshops para Jornalistas.
A falar é que a gente se entende.

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Caro Rui,
bem sei que o Pedro Oliveira deve ter-se sentido mais indignado com o comentarário do DE, contudo, a verdade é que mesmo sabendo que as próprias CNT têm que recorrer a outras fontes estatísticas (sejam do BP, ou mesmo de outros organismos dos INE) a verdade é que houve uma forte revisão, nomeadamente devido aos dados do Comércio Internacional, e que alteram a análise dos dados. O INE deveria, em beneficio dos seus utilizadores ser mais claro na divulgação dos dados. Por exemplo, o investimento que registou uma quebra de 3,1% no 3º trimestre, daria que aparentemente estaria melhor (comparando com os dados anteriores) mas com os novos dados significa uma quebra mais acentuada. A “culpa” não é tanto do INE que deve dar os dados mais actualizados, mas sim referir ao utilizador a actualização dos dados e quais as repercussões do mesmo.
Outro exemplo tem a ver com o IPC, e como o próprio Rui refere, não faz sentido o INE continuar a divulgar dois IPC’s, sabendo que um deles não está bem. É esta coerência que é muito estranha. Todos nós sabemos que o INE da forma como as estatísticas são produzidas, elas já têm uma componente de “intervenção” do Banco de Portugal e mesmo do MF (via Consumo Público).
Mas não vale a pena estarmos com rodeios, os analistas só olham o que lhes convém. Tal como o próprio Rui que tenta “puxar” as brasas às suas sardinhas
Comment by JazP — 14 December, 2006 @ 6:34 pm
Essa da “intervenção” do Banco de Portugal não percebi.
Quanto às revisões parece-me que, no que se refere às CNT (sobre o resto, por exemplo inflação, já deixei bem clara a minha opinião e parece-me evidente que se trata de matéria que fragiliza a defesa do INE em discussões como esta), no que se refere às CNT (onde trabalho) o INE informa em que é que as revisões se baseiam - qual foi a informação de base que foi revista. Infelizmente, caro JazP, nem sempre é possível detalhar mais (do que apontar o agregado revisto ou algum indicador) até por razões de segredo estatístico.
Diga-me lá, o que é o que o INE deve fazer se - hipoteticamente - algumas grandes empresas de determinados sectores só a meio do ano ou mesmo no ano seguinte é que se apercebem (ou por outras vias fazemos com que se apercebam) que se enganaram na inforamção que fizeram chegar ao INE, por exemplo relativa a investimento, exportações e importações?
Não estou a dizer que todas as revisões sejam alheias a falhas internas ao INE (ou a metodologias e amostras a pedir actualização urgente) mas o que é certo é que há muitas revisões, algumas delas de monta que são absolutamente incontroláveis pelo INE ou por qualquer outro INE do mundo. Eu diria mesmo que a frequência com que algumas delas estão a ser detectadas nos tempos mais recentes resultam de um melhor trabalho do INE. Passo a explicar: nos últimos anos tem-se feito o esforço de integração de informação administrativa (IVA, IRC, IRS, registos de empresas, etc) à qual estava vedado o acesso por parte do INE e que hoje permitem pôr em causa com maior celeridade alguma informação recolhida em inquéritos fornecida directamente pelas empresas. Muitos dos erros no passado pura e simpesmente não eram identificados, outros surgiam muitos anos depois com o encerramento das contas anuais e eram então incorporadas as revisões. Hoje, em algumas situações, as revisões precipitam-se com a exploração cruzada de mais informação disponível.
O que choca não é o tom crítico dos artigos, o que choca é a ligeireza e a injustiça criada por silogismos baseados na ignorância. O INE precisa de ter um estatuto claro, precisa de ter maior responsabilização, precisa de atingir a maturidade suficiente para enfrentar por si a sociedade gozando de inquestionável independência e de um competência ao nível dos melhores. Não me parece que seja com estes tirinhos de metralha que se contribua de forma significativa para identificar sequer um problema sobre o qual agir.
Por exemplo, caro JazP viu em algum jornal um escrutínio técnico do que se passa com a inflação? Alguém pediu, da área dos media, uma explicação ao INE? Até hoje não percebo como é possível deixar passar isso e depois vir com disparates generalistas como este. É preciso ter credibilidade para criticar…
Comment by Rui MCB — 14 December, 2006 @ 7:29 pm
Caro Rui
a “intervenção” do BP refere-se às Contas Financeiras e aos outras dados que são da responsabilidade do BP, tal como no que se refere ao MF.
Concordo que só se fazem omeletes com ovos e assim o INE só pode produzir dados a partir dos que tem.
Eu sou um apologista do INE e das estatísticas que o INE produz, continuo a dizer é que o INE deveria ser mais “informativo” sobre essas estatísticas, e mesmo a inferência que se pode tirar delas (isto retiraria os ruídos de análises). Eu sempre tive boa opinião do INE, e sei por experiência que o BP não tem melhores técnicos mas vende melhor o “seu peixe”, e parece mais credível, mesmo que estejam sempre a alterar as suas estatísticas.
Os analistas irão sempre ter as suas opiniões, e acho que o vosso trabalho deve ser mostrar eles estão errados. O que sabemos é que neste tempo em que a informação é ao segundo, o que fica para o público em geral são as más estatísticas que o INE produz, não há o princípio do contraditório, nisso a blogosfera é má e é boa, temos que saber distinguir o trigo do joio. Uma opinião pessoal, é melhor deixarmos a produção das estatísticas para o INE e a análise para os analistas, volto a dizer é o INE deve é precaver-se e referir exaustivamente as inferências que se podem tomar com as estatísticas produzidas.
Em relação à inflação, não precisamos de voltar a falar.
um abraço
Comment by JazP — 15 December, 2006 @ 1:08 pm
Estou largamente de acordo com o que diz. Discordo apenas da “análise aos analistas”. Sem consumo interno de topo (a exigir análise integrada da informação que acaba por concorrer com os “analistas” ao ser publicada) o INE fica tolhido da própria capacidade de perceber instantaneamente o que está mal, onde estão as suas fraquezas. Ter alguma análise de topo funciona como uma forma implícita de auditoria interna. Se a análise não fosse publicada seguramente o poder de pressionar para que se melhore algo que é evidentemente insatisfatório seria muito menor. Fazer análise implica um maior grau de responsabilização, algo que o INE não pode dar-se ao luxo de desprezar. O que seriam umas CNT sem análise que é aliás bem sucinta? O INE deve lutar por crescer, por atingir a maioridade e não auto-assumir uma menoridade implícita num recato defensivo de números-só-números. É possível desenhar uma grelha de análise e garantir o seu seguimento histórico como defesa para eventuais acusações de foro político.
No final a única grande defesa do INE - como de qualquer entidade de investigação, produção e/ou análise é a sua competência e credibilidade. Sobra ainda muita análise para muitos outros analistas terem o seu ganha pão…
A única área onde acho que o INE deve ter muitas cautelas em publicar análise(particularmente nesta conjuntura onde há ainda muito para fazer em termos de melhorar a qualidade percebida da informação produzida e a própria qualidade da dita) é ao nível da previsão - algo que o INE em Portugal apenas produz, e parece-me que bem e parece-me ainda com margem para crescimento, a nível demográfico.
Na área finaceira/económica é prudente deixar essas tarefas… a outros analistas. Para já.
Comment by Rui MCB — 17 December, 2006 @ 12:33 am