Pregados no fundo do mar e o prato de peixe ao almoço
Pescar com um colete vestido não é viável, não rende. Quem já andou na faina sabe e afrima isso.
Por outros lado, sobreviver dentro de água num temporal sem o colete salva-vidas posto (mesmo que o mar tenha águas cálidas) também não é possível durante mais que alguns instantes.
Mas será possível que perante a trancada crescente que se apanha no mar com um temporal de meter respeito, não haverá algures, entre a ameaça e o momento sem retorno, um momento claro e evidente para colocar o colete, não vá o diabo tecê-las ou não vá estarmos mesmo a pedi-las?
O João Morgado Fernandes também se coloca questões parecidas com estas e, tal como ele, sublinho que é muito raro em casos como este recente que se passou na Nazare que alguém averigue se "o condutor levava o sinto de segurança". É sempre mais fácil o discurso da falta de meios e da pouca prontidão, é sempre mais fácil reivindicar mais helicópteros e lanchas. Na minha opinião essas preocupações não são mutuamente exclusivas e ignorar sistematicamente a primeira "ajuda" a que tudo se repita. Ignorá-las é dar voz ao fado, àquele fado que é amigo íntimo da estupidez, aquele que sempre foi assim e contra o qual nada há a fazer.
Uma coisa é sempre certa, depois de "homem ao mar" é sempre um milagre assentar pé em terreno firme, mas na lista dos milagres passados não consta que algum prego tenha deixado de ir ao fundo.
Desculpem a crueza dos termos mas temos demasiados pregos por pescadores. Que ajudem menos à própria morte é algo que todos desejamos.

)


Naufrágio na Nazaré: uma constatação bem pertinente
A pertinência, as usual, de João Morgado Fernandes no french kissin’, post o estado, pois, que cito com a devida vénia:
«Os pescadores de Matosinhos […] estão a exigir do estado um pesado esquema de vigilância ao longo de toda a costa…
Trackback by Mas certamente que sim! — 3 January, 2007 @ 6:41 pm
Rui: Custa-me a acreditar que os pescadores se tenham desleixado com a defesa da sua própria vida.
Comment by ricardo — 4 January, 2007 @ 3:08 pm
Ricardo acredite que é muito raro algum pescador morrer com o colete salva vidas posto. A regra é andar no arame sem rede. Pelo menos nas pequenas embarcações. A fiscalização obriga-os a ter coletes nos navios mas não pode fazer mais do que isso. Gostaria de saber se neste caso a história foi diferente.
Comment by Rui MCB — 4 January, 2007 @ 3:49 pm
Não percebi porque não domino essa nomenclatura da faina. O que é isso de andar no arame?
A razão do meu comentário foi porque senti, mesmo com as tuas desculpas, uma crueza demasiado cruel, passo a redundância, no teu olhar sobre esta tragédia.
Comment by ricardo — 4 January, 2007 @ 11:31 pm
Quando escrevi estava inspirado pela revolta, a revolta da estupidez que tenho visto nas notícias sobre as mortes de muitos pescadores ao longo dos anos. Não é só nas estradas que nos atirarmos para morte. Desconfio que algo parecido terá também acontecido desta vez na Nazaré. Como disse, discutir as práticas de segurança a bordo não invalida que se averigue o que se terá passado com o salvamento mas não deixa ser revoltante passar ao largo (mais uma vez) do que se passa na embarcação. Os pescadores usaram os meios de salvamento? Estavam disponíveis? Levavam coletes? Morreram afogados de hipotermia, de contusões provocadas pela rebentação? O que falhou aí? Não li toda a imprensa mas do que li em nenhum local se averiguaram estas práticas, apenas o Estado esteve em questão.
Andar no arame sem rede, é o mesmo que andar no mar sem colete, ou até sem se saber nadar em condições - se calhar até fazia algum sentido garantir que quem é profissional da pesca saiba nadar… Pelo menos faz tanto sentido quanto reclamar motas-de-água e salva-vidas disponibilizados pelo Estado.
Talvez seja a altura de agitar um pouco as águas com algo politicamente incorrecto.
Comment by Rui MCB — 4 January, 2007 @ 11:45 pm
Em matéria de segurança no trabalho não é só na pesca que temos falta de condições de segurança e trabalhadores e empregadores temerários. Veja-se o que acontece na construção civil, por exemplo.
É, como dizes, também um problema de falta de cultura de prevenção de risco.
Comment by ricardo — 5 January, 2007 @ 1:34 am
Yep! Com uma pontinha de amor pelo fatalismo ou não fossemos um país de fado.
Comment by Rui MCB — 5 January, 2007 @ 1:37 am
Caro poeta,escultor de palavras e opiniões…Parece me demasiado frio a forma como analisa os acasos que ocorrem na vida, julgo que também na sua, ou prevê com toda a precisão tudo o que lhe acontece?(assim como o faz ao juntar palavras). Por acaso ja teve de ir trabalhar sobre perigo de morte para dar de comer aos seus filhos?
Por acaso ja espperimentou a escrever um texto num barco a balançar com ondas de 2m? (já nem digo 9 ou 10) Por acaso ja entrou sequer numa embarcação?
Por acaso sabia que em peniche houve quem nao fosse salvo, por nao haver pessoal suficiente das autoridades para sairem no salva vidas?
Uma coisa é sempre certa, depois de “texto escrito” é sempre um milagre acertar nas palavras quando não se sabe sobre o tema, mas na lista das palavras escritas não consta que alguma vez o escritor tenha vivido ou sentido algo parecido.
Desculpe a crueza dos meus termos, também mas temos demasiados escritores que por palavras escritas, “des” formam opinião. Que ajudem menos à desorganização instalada é algo que todos desejamos.
Comment by Paulo — 16 October, 2008 @ 3:14 am
Caro poeta,escultor de palavras e opiniões…Parece me demasiado frio a forma como analisa os acasos que ocorrem na vida, julgo que também na sua, ou prevê com toda a precisão tudo o que lhe acontece?(assim como o faz ao juntar palavras). Por acaso ja teve de ir trabalhar sobre perigo de morte para dar de comer aos seus filhos?
Por acaso ja espperimentou a escrever um texto num barco a balançar com ondas de 2m? (já nem digo 9 ou 10) Por acaso ja entrou sequer numa embarcação?
Por acaso sabia que em peniche houve quem nao fosse salvo, por nao haver pessoal suficiente das autoridades para sairem no salva vidas?
Uma coisa é sempre certa, depois de “texto escrito” é sempre um milagre acertar nas palavras quando não se sabe sobre o tema, mas na lista das palavras escritas não consta que alguma vez o escritor tenha vivido ou sentido algo parecido.
Desculpe a crueza dos meus termos, também mas temos demasiados escritores que por palavras escritas, “des” formam opinião. Que ajudem menos à desorganização instalada é algo que todos desejamos.
Comment by Paulo — 16 October, 2008 @ 3:14 am
Caro poeta,escultor de palavras e opiniões…Parece me demasiado frio a forma como analisa os acasos que ocorrem na vida, julgo que também na sua, ou prevê com toda a precisão tudo o que lhe acontece?(assim como o faz ao juntar palavras). Por acaso ja teve de ir trabalhar sobre perigo de morte para dar de comer aos seus filhos?Por acaso ja espperimentou a escrever um texto num barco a balançar com ondas de 2m? (já nem digo 9 ou 10) Por acaso ja entrou sequer numa embarcação?Por acaso sabia que em peniche houve quem nao fosse salvo, por nao haver pessoal suficiente das autoridades para sairem no salva vidas?Uma coisa é sempre certa, depois de “texto escrito” é sempre um milagre acertar nas palavras quando não se sabe sobre o tema, mas na lista das palavras escritas não consta que alguma vez o escritor tenha vivido ou sentido algo parecido.Desculpe a crueza dos meus termos, também mas temos demasiados escritores que por palavras escritas, “des” formam opinião. Que ajudem menos à desorganização instalada é algo que todos desejamos.
Comment by Paulo — 16 October, 2008 @ 3:16 am